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O que é Cripface?

O termo Cripface é usado para denominar prática onde personagens com deficiência que são interpretados por atores sem deficiência. Essa atividade é muito criticada, dentre outras coisas, por retratar de forma ofensiva pessoas com deficiência.

Além de ser considerado ofensivo, o cripface está diretamente ligado ao capacitismo, pois a não inclusão de pessoas com deficiência nas produções audiovisuais vem da crença de que elas não são capazes de interpretar tais papéis. 

Cripface

O Cripface traz muitas condições problemáticas à comunidade PcD, sendo a principal delas, a falta de ofertas de trabalho. Especialmente se pensarmos que o mercado de trabalho como um todo já é excludente para pessoas com deficiência.

E com a pressão estética imposta pela indústria cultural, as oportunidades de emprego ficam ainda mais restritas à artistas que se encaixam nos padrões sociais de beleza e “neurotipicidade”.

Como o termo surgiu

O termo Cripface surgiu recentemente nos Estados Unidos e é derivado de duas palavras em inglês: crippled (sinônimo de disable, que significa deficiência) e face (rosto). 

A escolha dessa terminologia remete a uma outra prática, surgida por volta de 1830, também nos Estados Unidos da América, o Blackface. 

Durante quase 200 anos, artistas brancos pintavam o corpo e o rosto de preto para representar pessoas negras em teatros, festas à fantasia, televisão e cinema e durante as performances, pessoas negras eram ofendidas e ridicularizadas. 

Algo semelhante ao que acontece atualmente, quando um artista sem deficiência interpreta um personagem com deficiência. Especialmente quando o cripface envolve deficiências intelectuais.

Para a comunidade autista, por exemplo, o mimetismo criado por artistas sem deficiência ao interpretarem características do espectro autista é considerado ofensivo e para muitos, o retrato criado pelo cinema e televisão é considerado irreal e não corresponde à realidade da pessoa no espectro.

Porque o Cripface é problemático?

Para uma boa parcela da população, é possível encontrar representatividade em produções audiovisuais, mas, para pessoas com deficiência, essa ainda é uma realidade distante.

O cinema é muito mais do que entretenimento. É através da arte que a sociedade pode se enxergar e se reconhecer como parte de um todo e é este sentimento de reconhecimento que faz com que ela toque e emocione o público. 

De acordo com levantamento da Annenberg Inclusion Iniciative, iniciativa que estuda diversidade dentro de produções culturais da University of Southern California, dos 100 filmes de maior bilheteria em 2019, apenas 2,3% possuíam personagens com algum tipo de deficiência.

A pesquisa não leva em conta se os personagens eram representados por pessoas com ou sem deficiência. Porém estes números são ainda menores ao contar os personagens que são interpretados por pessoas com deficiência.

Cripface, o capacitismo e a luta PcD

A prática do Cripface é considerada ofensiva por parte das pessoas com deficiência. Seja por mimetizar gestos e comportamentos relacionados às limitações das pessoas ou por retratar, em diversas ocasiões, a deficiência como algo limitante na vida de uma pessoa. 

Esse estereótipo criado nos filmes é totalmente contrário à luta das pessoas com deficiência e só reforça atitudes capacitistas das quais a comunidade busca constantemente combater.

Para conhecer outras atitudes capacitistas, você pode ler esse texto em nosso blog.

Outro grande problema criado pela Cripface é que, ao empregar atores sem deficiência para papéis PcDs, atores e atrizes com deficiência perdem oportunidades de trabalho, que já são escassas no cenário cultural. 

Além disso, a não contratação de pessoas com deficiência reforça a ideia capacitista de que elas não são capazes de desempenhar bons papéis e que a deficiência pode ser um fator impeditivo para a sua atuação. 

Exemplos:

Poster do filme: Como eu era antes de você.

Seja no cinema, no streaming ou na televisão, não faltam casos para exemplificar as práticas de cripface, tanto em produções nacionais quanto internacionais.

  • No cinema

(contém spoilers) O cripface mais famoso do cinema é o filme “Como eu era antes de você”, estrelado pelos atores Emilia Clarke e Sam Claflin. No romance, Sam Claflin interpreta William Treynor, um empresário que, ao ser atropelado, acaba ficando tetraplégico.  

A produção foi duplamente criticada pela comunidade PcD. Além de Sam ser um ator sem deficiência, o personagem não consegue se adaptar à sua nova realidade e opta pelo suicídio assistido ao fim da trama, representando a vida da pessoa com deficiência como sofrida e infeliz durante o filme.

  • Na televisão:
Poster da série O bom doutor

Algumas novelas brasileiras já tiveram casos de cripface. A novela Amor à vida, por exemplo, traz a atriz Aline Moraes como Luciana, uma jovem que fica tetraplégica depois de um acidente de carro. Na novela, Luciana (a personagem) é retratada como um exemplo de superação depois de “retomar” a vida depois do acidente.

  • No streaming:

A série “o bom doutor” (the good doctor, seu título original), conta a história de Shaun Murphy, um jovem médico autista.  Interpretado por Freddie Highmore, ator sem deficiência. A série fala sobre a luta de um médico no espectro para conquistar seu espaço e o respeito dos colegas de trabalho. 

Dicas para você evitar o Cripface e conteúdos capacitistas

A dica para evitar o Cripface, é sempre pesquisar o enredo da história que você quer ver antes de assistir. Assim pode ficar mais fácil identificar produções com histórias capacitistas. 

Uma pesquisa rápida sobre o elenco, também ajuda na hora de identificar produções que praticam o cripface. Mas se você não quiser ou não souber como pesquisar, fica de olho nas redes sociais da Freedom, porque todas as sextas-feiras tem dicas de filmes com temáticas PcD 🙂

E ai, gostou da matéria e quer saber mais sobre esse assunto? Se a resposta for sim, vem saber mais sobre o que é capacitismo e como evitá-lo!

2 thoughts on “O que é Cripface?

  • Olá. O artigo é bom, só peca num detalhe. Não se fala em pessoa com autismo, mas pessoa autista, pois o autismo é indissociável da personalidade. Eu sou pessoa autista, não pessoa com autismo.

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    • Obrigado pelas palavras Sr. Odir, fizemos uma atualização no texto seguindo seu comentário.

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